quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


O mundo fantástico das grutas de Peter Lund na terra de Guimarães Rosa

Se você está de férias após as festas do Natal e Ano Novo, e pretende desfrutá-las no Brasil, sozinho ou com familiares, e ainda não escolheu um destino, Minas Gerais  é uma das melhores opções. Mas desta vez não para conhecer/e ou rever o roteiro das cidades históricas ou das estâncias hidrominerais. A sugestão vai leva-lo para debaixo da terra.

Não se impressione, não se trata de visitar alguma catacumba. O que propomos é uma viagem aos subterrâneos dos municípios de Sete Lagoas, Lagoa Santa, Cordisburgo e Pedro Leopoldo, para conhecer o fantástico mundo das grutas descobertas pelo naturalista Peter Lund na terra de Guimarães Rosa, do épico "Grande Sertão  Veredas".

Gruta do Maquiné - foto Setur
Foi a partir do século XIX que as grutas da região começaram as ser estudadas e pesquisadas, com a chegada em 1833 das  expedições chefiadas pelo naturalista dinamarquês  Peter Lund.  Em suas pesquisas ele descobriu, não apenas as formações geológicas das cavernas, mas numerosas pinturas rupestres e fósseis de mais de 100 espécies de mamíferos, incluindo de seres humanos. 

Em Lagoa Santa Santa,  por exemplo, foram feitas algumas das maiores descobertas paleontológicas do Brasil. Entre os fósseis encontrados, está o de Luzia, um dos esqueletos mais antigos da América, com cerca de 12 mil anos e que recebeu o nome de Homem de Lagoa Santa

Das mais de 15 mil cavernas catalogadas no país, 6 mil estão em Minas, de acordo com os registros recentes do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav, com sede em Brasília. E por sua importância, a Rota das Grutas é considerada o berço da palenteologia brasileira.

Este circuito de ecoturismo, que foi implementado em 1998, é fácil de ser percorrido por ficar distante apenas  40 km ao norte de Belo Horizonte, e bem acessível via rodoviária.  As cidades da Rota das Grutas ficam próximas umas as outras, tem boa rede hoteleira, facilitando o deslocamento para quem viaja de carro ou de ônibus e sendo um ótimo passeio também para os finais de semana de quem está na capital mineira ou faz dela a base de sua expedição..

Como você não é candidato a Peter Land , sua exploração exigirá apenas  três dias para conhecer as  três maiores cavernas  que integram o roteiro sugerido: Rei do Mato, em Sete Lagoas; Lapinha, em Lagoa Santa, e Maquiné, em Cordisburgo. E ainda terá tempo para visitar   o Museu de Peter Lund, no Parque Estadual do Sumidouro, em Lagoa Santa e Pedro Leopoldo,  onde fica a Gruta da Lapinha, e  o Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo.     

Parque  do Sumidouro  e Lapinha

É uma unidade de conservação criada em 1980, com sede na Casa Fernão
Gruta da Lapinha- foto Setur
Dias, nos municípios de Pedro
Leopoldo e Lagoa Santa. Tem uma área de 2.004 hectares e um de seus destaques é a Gruta da Lapinha. O parque conta com 157 sítios arqueológicos e 35 grutas catalogados, além de pinturas rupestres que datam de 4 mil anos.
A Gruta da Lapinha foi um dos sítios estudados por Peter Lund. É bastante conhecida também pela sua utilização turística pois tem numerosas formações calcáreas em seu interior. Há diversos salões que podem ser visitados e entre os vários espeleotemas, se destacam as estalactites e as estalagmites. A extensão da gruta  é de 511 metros e e sua profundidade chega a 65 metros em alguns pontos. Suas formações calcáreas datam de 600 milhões de anos.

Pedro Leopoldo é a terra natal do famoso médium  Chico Xavier. A casa onde ele morou por muitos anos pode ser visitada percorrendo o Circuito da Luz, com o centro espírita por ele fundado.

A visitação  Gruta da Lapinha é de terça a domingo, das 9 às 16h. É cobrada uma taxa de 10 reais pela entrada (valor  de 2016). Se você está viajando em grupos, é preciso agendar. Mais informações pelo número (31) 3661- 8671.

A Pré-História no Museu

Depois de conhecer a Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa  uma visita ao Museu Peter Lund é imperdível. É uma viagem pela pré-história, entrando em contato com um passado de mais de 11 mil anos. Inaugurado em setembro de 2012,  pelo governo de Minas, num empreendimento conjunto com o governo da Dinamarca,  o museu é um polo científico e turístico que foi inspirado na trajetória do paleontólogo dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801–1880). Ele viveu na região de Lagoa Santa por mais de 40 anos.

Museu Peter Land -foto Cintia Palhares
Instalado perto da Gruta da Lapinha, seu acervo expõe 80 fósseis cedidos em regime de comodato pelo Museu de História Natural da Dinamarca, país de Peter Lund. No dia da inauguração, vieram o príncipe herdeiro Frederik André Henrik Christian, e sua mulher , a princesa Mary Elizabeth.

Foram investidos pelo governo de Minas mais de R$ 5 milhões e o museu, que ocupa uma área construída de 1.850 metros quadrados. se integra à Rota Lund, cujo objetivo é incentivar  o desenvolvimento regional por meio de um roteiro turístico, que inclui a Estrada Real e os Caminhos de Guimarães Rosa, em Cordisburgo”.

O acervo  é formado por fósseis encontrados por Lund durante suas pesquisas na região, cujas características geológicas favorecem o aparecimento de grutas e cavernas. O museu dispõe de duas salas exclusivas para que o visitante conheça os planos de manejo do parque espeleológico; sala multiuso para projeção de filmes, palestras e oficinas; salas de exposição, uma delas destinada ao acervo do Museu de História Natural da Dinamarca; espaço para reserva técnica, conservação e restauro de obras; café e loja.

No tempo em que viveu na região de Lagoa Santa, Lund enviou ao seu país uma coleção de 12.622 peças, a maioria encontrada na Gruta Lapa Vermelha, em Lagoa Santa, destruída por uma empresa na década de 1970, para fazer o tesouro natural virar sacos de cimento. Entre os destaques do acervo estão ossos humanos, de animais pré-históricos, como a preguiça gigante, tigre-dente-de-sabre, lhama, tatu gigante, gliptodonte e mastodonte e de animais ainda existentes na atualidade, como capivara, tatu e lontra entre outros.

O acervo  valoriza a história de Minas e o trabalho de Peter Lund contribuiu para que a região cárstica do Estado, que compreende Lagoa Santa, ficasse mundialmente conhecida como importante campo de estudos para a paleontologia, arqueologia e espeleologia. Ganhadestaque o sítio arqueológico da Lapa Vermelha 4, em Pedro Leopoldo, onde, em 1975, uma missão franco-brasileira, chefiada pela arqueóloga e professora francesa Annete Laming Emperaire, encontrou o crânio humano com idade aproximada de 11.500 anos. Estudado por vários pesquisadores, o professor, biólogo, arqueólogo e antropólogo, o mineiro Walter Neves batizou o crânio de “Luzia”, sendo este o fóssil humano mais antigo das Américas.

Gruta Rei do Mato

Gruta Rei do Mato- fotoSetur
Com acesso pela Rodovia BR 040, em Sete Lagoas, a Gruta Rei do Mato é outra das grandes grutas a serem visitadas na Rota. São 998 metros de extensão, mas apenas 220 deles estão abertos para o público. São exatamente esses 220 metros que se transformaram em uma trilha incrível!

Detenha-se parar para conhecer o Salão das Raridades, onde duas colunas inteiras de cristal de calcita estão expostas. Nesse espaço também há algumas pinturas rupestres que datam de mais de seis mil anos. Você também encontrará uma réplica de um mamífero pré-histórico feito em resina. Segundo os estudiosos, essa espécie de animal habitou a região no período paleolítico.

O passeio  pela Gruta Rei do Mato custa 10 reais (valor de 2016) e ele pode ser feito todos os dias, das 8 às 16h30.

Gruta do Maquiné

A mais importante e famosa das Grutas é á do Maquiné,  em Cordisburgo,
Gruta do Maquiné- foto Setur
terra de Guimarães Rosa
. Foi descoberta por Joaquim Maria Maquiné – razão do nome do lugar – no ano de 1825. Ele era um fazendeiro muito conhecido na região e cedeu seu terreno para exploração em 1834, quando ali chegou Peter Lund .

A Gruta do Maquiné  tem sete salões, cada um com cerca de 700 metros de extensão e 18 metros de profundidade. O visitante, acompanhado por guia local, circula pelos 400 metros que estão abertos ao turismo, por meio de passarelas, tudo estrategicamente iluminado para realçar as figuras desenhadas pelo tempo.

No Salão do Urso ou do Elefante, de acordo com a imaginação de cada um, há um imenso cogumelo que tem o formato da explosão de uma bomba atômica. Na Galeria  das Fadas chamam a atenção os cristais brilhantes, que se assemelham a franjas e grinaldas.

Para fazer o passeio paga-se 14 reais (preço de 2016) e a Gruta fica aberta todos os dias das 9 às 17h (última entrada às 16h). Mais informações no site da Gruta do Maquiné e pelos telefones(31) 3715-1310 e 3715-1078 . O acesso , partindo,de Belo Horizonte, é pela BR-040, sentido Sete Lagoas

Museu Casa Guimãres Rosa- Foto Setur

Museu Casa Guimarães Rosa

Quando estiver em Codisburgo, não deixe de
Gabinete do Escritor- foto Setur
conhecer o acervo do Museu Casa Guimarães Rosa,  autor de “Grande Sertões Veredas” e “Sagarana”. Muitos dos móveis e objetos pessoais do famoso escritor mineiro estão ali, onde nasceu e passou grande parte de sua vida. Além de ver a casa em que morou, o visitante tem acesso à um grande conjunto de obras documentadas de próprio punho. No local há também o Portal Grande Sertão, com esculturas de bronze em homenagem à sua obra mais famosa.

Para visitar é cobrada uma taxa simbólica para manutenção da casa, de 2 reais (valor de maio de 2016). O Museu abre de terça a domingo, das 9 às 17h. Ele fica na Rua Padre João, número 744. Você  pode ou obter mais informações pelo email museuguimaraesrosa@cultura.mg.gov.br e pelo telefone (31) 3715 -1425.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

“Mudou o Natal ou Mudei Eu?”
  Não, nós é que mudamos.


Recorro a uma passagem do clássico “Soneto de Natal”, do grande Machado de Assis, e volto à minha infância e boa parte da juventude na mineira Uberaba. Ali, passei muitos dos meus melhores Natais, ao lado dos saudosos  pais, hoje na Glória do Senhor,  e dos quatro irmãos, antes de me mudar para São Paulo, na década  de 60. São todos inesquecíveis.

Respeito a opinião de todos os que discordarem, mas, para mim, o Natal continua e sempre será o mesmo. Um momento mágico, a grande festa da família. Nós é que fomos mudando, ano após ano,  por um sem número de motivos e/ ou circunstâncias  que surgem ao longo da vida pessoal e profissional de cada um. 

Lembro que,  na época, não havia em nossa  casa a árvore de Natal. E, para uma família católica como a nossa, ir à missa do Galo era uma obrigação. Começava às 23 h e terminava à meia-noite. Os presentes, o Papai Noel colocava debaixo da cama de cada um. Ninguém nunca via, estávamos todos dormindo.

Dormíamos ansiosos e explodíamos de alegria na manhã do dia 25 ao ver os presentes. Papai Noel, apesar das dificuldades, não esquecia de ninguém. E saímos para a frente de casa para brincar e exibi-los às outras crianças  que moravam  na mesma rua.

O tempo passou e fui o primeiro a sair de casa, já formado em jornalismo, direto para São Paulo. E aos poucos, meus pais e irmãos se fixaram em Belo Horizonte. Mas eu trocava cartas com os meus pais e ficava sabendo das novidades da vida da cada um. O Dia das Mães e dos Pais e os aniversários deles eram a oportunidade para visita-los e matar a saudade.

Mas, no Natal é que todos nos reuníamos: pais, filhos, cunhados, genros, noras, sobrinhos, netos, bisnetos  e, a cada ano novos agregados, namorados e/ou noivos que foram se integrando à família para a tradicional ceia e os brindes que antecedem a distribuição dos presentes e os abraços fraternos por meio do amigo secreto ou oculto.  

Bons tempos.  
No ciclo da vida, inevitável, 
muitos já desembarcaram do trem
e outros embarcaram. Mas,  para a nossa família, o Natal não mudou  Claro, já não temos a presença de nosso pai e mãe,  e de outros entes queridos. Gradativamente o número de participantes diminuiu. Também por uma série de fatores e interesses, como separações, mudanças para outros países e de imprevistos.  A cada ano o álbum de fotos se modifica.  

Este ano, estaremos reunidos, sempre em BH, para a ceia e a confraternização em família. Não seremos muitos. Mas, sob as bênçãos do Menino Jesus, vivenciaremos o espírito de Natal. Que não mudou, apesar de que nós, talvez, não sejamos mais os mesmos

Um Feliz Natal em Cristo e um Ano Novo pleno de saúde e realizações para todos.


   

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Brinde com bons vinhos, alcachofra e muita arte

na 25ª Expo São Roque

Apresentando mais uma edição da Expo

Aproveite este fim de semana, espichado pelo feriado e faça um passeio até a cidade de São Roque. De clima serrano e temperaturas mais amenas nesta época, fica perto da Capital (menos de 60 quilômetros) possibilitando  ir e voltar no mesmo dia. É há um motivo especial para a visita: conhecer e degustar o principal produto apresentado por 13 vinícolas do município, o vinho. E se divertir na última semana da 25ª Expo São Roque – Vinhos e Alcachofra, uma festa que começou no dia 6 de outubro e termina no próximo dia 5.

O evento sucedeu, a partir de 1992, à tradicional Festa do Vinho, e faz parte do calendário
Preparando a degustação
turístico do Estado. É promovido pelo Sindicato da Indústria do Vinho de São Roque com o apoio da Prefeitura local e reúne enogastronomia,  compras, shows e manifestações artísticas. O público esperado para todo o período da Expo é de cerca de 80 mil pessoas, incluindo turistas de várias regiões do Estado e do País.

Há sempre novos lançamentos
Quem for à feira, no atraente Recanto da Cascata, e que nesta última semana abrirá a partir de quinta-feira (2), poderá participar também da Pisa da Uva. A atração acontece diariamente, às 16h30, e remete à tradição de pisar nas uvas, que é um dos primeiros processos para a elaboração e produção do vinho. Personagens em trajes típicos de imigrantes entram em tinas enormes, cheias de uvas,  para mostrar como se fazia o vinho antigamente. O público é convidado a colocar os pés nas tinas..

Música, marionete, mágicas e alcachofra
Mas, tem muito mais. Com o tema “Tempos e Ritmos – Hits” que embalaram gerações, a feira
Danças para todos os gostos
leva o público a recordar os clássicos e artistas que foram sucesso nas décadas de 50, 60, 70 e 80. Dos anos dourados até o pop e com as músicas cuja letra quase todos sabem de cor.
Na decoração do ambiente, um aparelho de jukebox, uma guitarra e uma lambreta gigante aparecem no Instagram dos turistas junto aos posters de cantores desta geração.  A cenografia foi criada por meio de uma parceria do Sindicato da Indústria do Vinho de São Roque e a Escola de Samba Santa Quitéria.
Show de marionetes agrada as crianças
E para divertir as crianças, no palco, diariamente, há o Teatro de Marionetes, um espetáculo musical produzido pelo artista Edilson Pollarah, que estudou com dois dos mais conceituados especialistas do mundo: o brasileiro Manoel Kobachuch, e o russo Viktor Antonov. As apresentações começam ao meio-dia.
Para a terceira idade, na sexta-feira, tem o Baile da Saudade e um bingo que premia com produtos típicos expostos no Recanto da Cascata.
Grupo Magia da Dança
Também no palco há apresentações do Grupo Magia da Dança, com 18 bailarinos, da Banda Sinfônica Conselheiro Mayrink, executando músicas que marcaram época, além de e uma atração especial desta última semana da Expo, que agrada a todas as gerações: as mágicas de Osamá Sato, que também é ator e empresário do setor de brinquedos e livros que estimulam a prática da sua atividade.
Alcachofra, a  outra estrela da Expo
A alcachofra é a outra estrela da Expo e seus apreciadores vão se esbaldar com os diferentes pratos feitos com esta iguaria, um dos fortes da gastronomia da cidade. Eles são preparados por um especialista, o chef Osley José . Aos interessados serão ministrados workshops, no sábado, domingo e feriado, para mostrar como selecionar, higienizar e degustar a alcachofra. Os horários são: às  12, 14 e 16.

 Qualidade cada vez mais apurada

No amplo pavilhão do vinho do Recanto da Cascata, cada vinícola ocupa um espaço para exibir novidades de sua produção que é caracterizada pela qualidade da safra cada vez mais apurada e reconhecida no país e até no Exterior, de acordo com a avaliação do respeitado enólogo Fábio Góes.

Na atual edição,  a vinícola Goés  está lançando o vinho Pétalas Cabernet Franc, o mais novo rosé da Casa, feito com uvas 100% produzidas em São Roque. "É um vinho agradável, que combina com o nosso clima quente, e de fácil harmonização com diferentes pratos e que pode ser tomado, por exemplo, à beira de uma piscina ou na praia com um baldinho de gelo”, destaca o enólogo.

Os apreciadores dos espumantes encontrarão na feira alguns dos seus melhores representantes.  A vinícola Bella Quinta,  por exemplo, expõe dois destaques do Guia Adega de Vinhos Brasil, publicação que reúne os melhores vinhos do país: o Brut Gavia e o Gávia Moscatel.

Para o diretor da Bella Quinta, Gustavo Borges,  a Expo São Roque “é uma grande divulgação
Mostrando como era produzido o vinho
democrática do vinho, na qual todos participam. Todo ano, cerca de 50% do público se renova e novas pessoas que vão à festa acabam por conhecer os nossos produtos. Então a festa é boa para o produtor e para o para o consumidor”, enfatiza.

Também é destaque na Expo o vinho Lorena,  variedade de aroma frutados, sabor floral e refrescante, e especialmente desenvolvida, em parceria com a Embrapa, pelas vinícolas da cidade. Originalmente produzida em solo americano, a uva se adaptou muito bem no município e o presidente do SINDUSVINHO,  Fernando Pereira Leite, revela que o projeto da entidade é transformar o Lorena no vinho referência de São Roque.

Sempre é bom conhecer

Depois de provar os vinhos das diferentes marcas expostas,  os visitantes  podem participar de workshops, ministradas pelo enólogo  Fábio Góes todos os dias da feira, menos na sexta, sempre às 15 horas. O especialista, formado em Bento Gonçalves(RS) é responsável pelo controle de qualidade e diretor industrial da Vinícola Góes. É uma boa oportunidade para quem deseja  aprender mais sobre a história da uva, como é produzida, como armazenar e degustar o vinho e saber das curiosidades sobre o universo da enologia.

Ao som de clássicos do passado
A viniviticultura  foi trazida para São Roque por imigrantes portugueses e italianos com seu amplo conhecimento das plantações de uva da Europa e que  estabeleceram moradia no interior de São Paulo. As primeiras vinícolas surgiram no início do século XX e, a partir da década de 30, houve um salto na produção. Isso fez com que muitos agricultores da região se interessassem pela atividade e, atualmente,  São Roque produz cerca de 20 milhões de litros da bebida por ano e é conhecida como a Terra do Vinho.

Estão com estandes montados no pavilhão do Recanto da Cascata as seguintes vinícolas: Bella Aurora, Bella Quinta,  Canguera,  Frank, Góes, Palmeiras, Quinta dos Guimarães, Quinta Jubair, Quinta Moraes, Quinta do Nino, Quinta do Olivardo, Terra do Vinho e XV de Novembro.

Serviço

25ª Expo São Roque – Vinhos e Alcachofras

Data: até  05 de novembro (todas as sextas, sábados e domingo feriados), das 10 às 20h.

Local: Recanto da Cascata - Av. Antônio Maria Picena, 34 - Vila Junqueira, São Roque.

Ingressos: Sextas-feiras, R$ 10,00; sábados, domingos e feriados ( 02/11), R$ 28,00; crianças menores de 8 anos não pagam; adultos acima de 60 anos e estudantes pagam meia entrada, com apresentação de comprovante.

Mais informações: telefone - 11-4712-3231 Site - www.exposaoroque.com.br Facebook - https://www.facebook.com/exposaoroque

Contato para imprensa OS2 Comunicação Jornalista responsável: Thaís da Silveira Atendimento: Camila Pedroso Telefones: (15) 3318-1922 e (15) 99722-5506 e-mail: camila@os2.comunicação.com.br

Todas as fotos que ilustram este post são de Vania Renzo.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Edifício Martinelli foi um “sonho de ficar mais perto do Céu”

Martinelli visto da av S.João- foto Google
Ele surgiu há quase um século. Com início em 1924, foi inaugurado duas vezes: a primeira em 1929, com 12 andares, e a segunda em 1934, com seus atuais 30 andares. Projetado pelo engenheiro-arquiteto húngaro, William Fillinger, contratado pelo seu idealizador, o comendador italiano Giuseppe Martinelli, demorou 5 anos para ser concluído. É que a construção de um prédio tão alto,  gerou polêmica e chegou a ser embargada pela Justiça, em 1925, sob o argumento de que tinha ultrapassado o limite estabelecido pela Prefeitura, não era segura e poderia desabar.

Giovanni Martinelli - foto Wikipédia
Martinelli  superou todas as barreiras, teve paciência, foi persistente e foi acrescentando andares. E quando o prédio atingiu os 25, em 1928, ergueu uma Vila Italiana, com um palacete para sua moradia, completando assim os 30, seu maior objetivo. Estava no ponto mais alto da cidade. Talvez, quem sabe, para ficar “mais perto do Céu”, de acordo com alguns comentários  a ele atribuídos na época..

O Edifício Martinelli, com 130 metros, foi um marco na história da arquitetura paulistana. É  todo feito em alvenaria e concreto. A maior parte do material era importada, incluindo o cimento, que veio da Suécia e  da Noruega. O prédio, na ocasião, o mais alto da América Latina e o segundo do país, esteve perto de ser demolido pela Prefeitura, sua atual proprietária, depois de um período de decadência, devido ao descaso, ausência de manutenção  e ocupação desordenada, quando deixou as colunas sociais da mídia para frequentar á páginas do noticiário policial. E não foi sem razão, pois muitos crimes e suicídios ocorreram nas suas dependências.

Felizmente, para enriquecer a paisagem urbana, o prédio, cuja construção  rompeu com os padrões da época, e apresentava traços de arquitetura francesa, foi reformado e preservado na gestão do prefeito Olavo Setúbal, em 1975. A reabertura ocorreu em 4 de maio de 1979.

Desde então, passou por outras obras de restauração e atualmente tem seis andares ocupados pelo Sindicato dos Bancários e os demais pela Secretaria Municipal de Habitação, Cohab e Emurb e numerosas empresas privadas. O Edifício Martinelli tem mais de 2.000 dependências e um movimento diário de 3 mil pessoas que ali vão a trabalho.

Terraço e palacete - foto Google
É de se lamentar que a sua principal atração, o terraço da Vila Italiana do Comendador Martinelli, com 800 metros quadrados, e palco de muitas festas, bailes  e recepções no seu passado áureo, e de onde se têm vistas fantásticas de São Paulo, não esteja aberta à visitação. O que acontecia até março deste ano, sempre aos sábados.

Nos últimos três anos chegou  a receber 60 mil pessoas,
Turistas no prédio - foto Cantinhodena.com.br
desde turistas comuns do Brasil e de fora, até artistas famosos do cinema e da TV, que conheceram toda a história do Martinelli e do milionário empreendedor e seu idealizador , o comendador Giuseppe Martinelli. Contada em detalhes pelo guia  Edson Cabral, que atuou nas Rádios Gazeta e Bandeirantes. Ele trabalha no edifício há 12 anos, foi supervisor geral da segurança  e é seu atual  relações públicas. Segundo informações do síndico do prédio, Sinval Vilachi,  a visitação ao terraço e outros eventos no local foram suspensos até que seja concluído e executado um projeto, em elaboração, para uma nova reforma. Mais uma das muitas em sua história, de altos e baixos.  

Mas, os paulistanos  e turistas que passam diariamente pela  rua Líbero Badaró, onde fica uma das entradas do edifício, pelo menos  têm a oportunidade de conhecer  o lendário Café Martinelli – Midi, um dos condôminos do pavimento  térreo do velho Martinelli.

Com projeto que remete à época da inauguração do prédio,  o estabelecimento  funciona ali  desde outubro de 1993. Tanto suas mesas e objetos de decoração são originais e o Café se orgulha de ter sido eleito o melhor da cidade, durante três anos, nos quesitos comida, ambientação e serviço, por uma revista e um guia especializados.

Além do expresso, feito com grãos 100% arábica, tradicional ou orgânico, são servidos cappuccinos, chocolates, drinks e salgados de qualidade.  Quem quiser almoçar, encontra uma culinária típica de bistrô, que inclui pratos como  o Vol-au-vent (torta de massa folheada, com 10 cm de diâmetro, servida com variedade de recheios e acompanhada de salada ou arroz branco).  O cardápio tem ainda massas, carnes, peixes, quiches e croques.  Se você não dispensa uma boa sobremesa, pode escolher entre brownies, tortas feitas na própria  cozinha do Café Martinelli, e sorvetes.

Filme e orquestra na inauguração

Exatos 22 dias antes do início da Grande Depressão, quando houve a Crise da Bolsa de Valores de Nova York , que quebrou a economia mundial e gerou também uma grave crise política no Brasil, o prefeito Pires do Rio inaugurou, em 2 de outubro de 1929, o luxuoso e charmoso Edifício Martinelli.

Martinelli visto de fora - foto GS Noticias
Para a sua construção, o comendador Giuseppe Martinelli comprou um terreno de 2 mil metros quadrados na esquina da av. São João com a rua São Bento. Na obra, exemplo paulistano do  Art Decó, Martinelli escolheu acabamentos luxuosos. Chamavam atenção as portas de pinho de riga, as escadas de mármore carrara, a decoração das paredes com papéis belgas, a louça sanitária inglesa e os elevadores suíços. Além de pinturas a óleo em algumas salas e 40 km de molduras de gesso em arabescos. Alguns números do edifício são impressionantes: a área total construída é de 48 mil metros quadrados, tem 60 salões, 2.133 janelas, 1.051 degraus e 12 elevadores.

Apesar de ser uma entrega parcial, pois o prédio tinha na ocasião apenas 12 dos 30 andares com os quais foi finalizado em 1934, transformou-se em um grande evento social, animado pela orquestra do Maestro Gabriel Migliori e com a exibição do filme “O Pagão”, estrelado por Ramon Navarro. A partir daí, todos os que chegavam a São Paulo  faziam questão de conhecer  o Martinelli e contemplar a cidade lá do alto. Entre as personalidades que registraram sua presença no edifício que se tornou um marco da metrópole estavam o Príncipe de Gales, em visita à Capital, e Júlio Prestes, que na ocasião era o Presidente do Estado.
Vista do 26ºandar - foto Trip Advisor

No mesmo ano, Giuseppe Martinelli mudou-se para o prédio com sua família, formada pela esposa, duas filhas e a sogra. Estava concretizado seu antigo sonho.de erguer o primeiro arranha-céu de São Paulo. E este fato gerou uma curiosidade: muitas pessoas mostravam receio de passar pelo local, acreditando que a gigantesca obra poderia desabar. Então, para demonstrar que não havia este risco, ele foi ocupar a “Vila Italiana”, de três andares, que havia construído a partir do 26º andar, para sua residência. 

Arturo Patrizi, um professor de dança, foi o primeiro inquilino do Martinelli, onde montou uma escola para dar aulas e que alcançou grande sucesso na época.

O Martinelli, na sua fase inicial, era dividido em três setores: na rua Líbero Badaró ficava a parte residencial, destinada aos ricos da cidade; a da rua São Bento foi reservada para a área do comércio e, a da av. São João, abrigava o Hotel São Bento e os salões Verde e Mourisco,  bastante procurados pela elite paulistana.

No edifício também funcionou  o famoso Cine Rosário, então o mais sofisticado cinema da cidade e que se tornou ponto de encontro nas noites de sexta-feira.  

Quebra da Bolsa, venda e leilão

 A quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, com consequências na economia de todo o mundo,  liquidou com os planos do conde Martinelli.  Ele contava que o edifício seria ocupado pela classe rica da cidade, mas com a crise, houve grandes perdas e não conseguiu  vender os apartamentos para recuperar todo o dinheiro que investiu na obra.

documento do embargo- foto: Google
Sem recursos para saldar as dívidas, restou como única alternativa  vender o prédio para o Instituto Nazionale di Crédito per il Lavoro Italiano all’Estero (ICLE), em 1933. O Banco ficou com o prédio até 1943..

Mas, surgiu um fato novo, quando a Itália, aliada da Alemanha na 2ª Guerra Mundial, afundou  navios brasileiros. O governo do Brasil confiscou os bens dos cidadãos italianos, alemães e japoneses existentes no país. E o Edifício Martinelli ficou sob administração Federal e, em seguida, foi a leilão.

Como nesta ocasião, o conde Martinelli já havia  recuperado sua condição econômica e financeira, que lhe permitiu construir, inclusive, 14 prédios no Rio de Janeiro, tentou reaver o prédio que, entretanto, foi vendido para Milton Pereira de Carvalho e Herbert Levy.  Na sequência, o prédio foi fatiado pelo Banco do Brasil  e passou a ter 103 proprietários. 

Assim,  tornou-se  o primeiro edifício do Brasil a se transformar em condomínio, com cerca de 70% nas mãos do poder público e 30% do setor privado.

De acordo com os registros da época, condôminos importantes passaram pelo Martinelli. Foi sede, por exemplo, do Partido Comunista, e no mesmo andar do Partido Integralista. A UDN também instalou-se no prédio, assim como agremiações esportivas como o Palmeiras,e a Portuguesa de Desportos, e entidades  como o Instituto Dante Alighieri, a Ordem dos Músicos, além da Federação Paulista de Medicina e o Sindicato dos Alfaiates.

Degradação e renascimento

A história  do “Edifício Martinelli foi marcada também por um longo período de degradação, e alguns  mistérios. Na décadas de 60 e 70, sob administração dos 103 proprietários, e com o nome alterado  para Edifício América, transformou-se em um cortiço, por ser uma alternativa barata para se morar no centro da cidade. Os responsáveis perderam o controle do prédio, o que fez com que um grande número de pessoas o ocupasse. E foram adaptando as estruturas existentes às suas necessidades, usando os tanques para lavar roupa como pia e os sanitários para servir de cozinha.

Acompanhando  a decadência, o Hotel São Bento, aberto para ser um dos mais requintados e receber hóspedes de alto nível, passou a ser cada vez menos  utilizado e pouco a pouco foi sendo desativado.

A partir de então, o Martinelli passou a ocupar  diariamente as páginas da crônica policial, pela ocorrência de assassinatos, alguns até hoje não elucidados, casos de prostituição e suicídios. E, como não poderia deixar de ser, surgiram histórias de que o prédio ficou mal assombrado e, claro, com a presença do fantasma de uma mulher loira que caminhava à noite pelos seus corredores.

Quem entrava no interior do prédio, encontrava de tudo um pouco: igrejas e prostíbulos, bares, bilhares, danceterias e apartamentos detonados. As famílias que ali moravam tinham que conviver com o mau cheiro, iluminação clandestina e precária. Sem falar no medo constante dos marginais que circulavam e se escondiam nas dependências do edifício.

 Para completar este quadro, os corredores ficavam sempre às escuras, o lixo, em certa oportunidade, alcançou a altura do 6º andar  e só seis elevadores estavam em operação.
Quando já havia chegado ao fundo do poço, e na gestão do prefeito Olavo Setúbal, o Martineli passou, finalmente, por uma grande reforma. Os moradores receberam a ordem de despejo para que as obras fossem iniciadas. Na ocasião, muitas famílias ficaram sem ter para onde ir e o problema habitacional da cidade de São Paulo virou tema constante na mídia.

Prefeito Olavo Setúbal na reinauguração
A reforma foi feita com financiamento pela Prefeitura, Banco Itaú e  por alguns dos proprietários do prédio. A  Administração Municipal também comprava a parte dos proprietários que não tinham recursos para colaborar com as obras de restauração. De acordo com o que foi divulgado, durante os trabalhos foram encontrados corpos de crianças nas tubulações no Martinelli, fiações clandestinas e um grande volume de lixo nos poços dos elevadores.


Toda a história da saga do comendador Giuseppe Martinelli, desde sua chegada ao Brasil,  em 1892, e da construção  do primeiro arranha-céu de São Paulo, pode ser acessada pelo site prediomartinelli.com.br.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Legado da educadora Anália Franco é bem maior do que nome de um bairro e de shopping

“Depois do pensamento e da palavra de Deus, nada é mais belo e mais nobre do que a missão do verdadeiro educador da infância.  A abnegação, o desinteresse e o sacrifício devem ser a única divisa da pessoa a quem Deus e a sociedade concederam tantas prerrogativas. O seu ministério, todo moral, e a dignidade das suas funções medemse pela profundidade das suas responsabilidades. O mais sagrado de todos os interesses sociais  é a educação popular e é por isso que os espíritos verdadeiramente humanitários  consideram esta missão como um dos poderosos meios de fazer o bem”.
Casarão do Regente Diogo Antonio Feijó

Com raras exceções, e entre elas certamente estão incluídos os que comemoraram na última semana, em todo o país,  o Dia do Professor, poucos conhecem bem a obra de uma das mais importantes educadoras do Brasil, Anália Franco. É dela a mensagem sobre o papel do magistério que destaco na abertura deste post em sua homenagem.

Apesar de ter criado e mantido em sua época, em quase todo o país, principalmente no Estado de São Paulo, mais de 100 escolas e instituições de ensino e apoio a crianças órfãs, abandonadas na Roda da Santa Casa, viúvas, mães desamparadas e "moças decaídas", seu extraordinário legado nunca teve o devido reconhecimento ao longo da história.

E, mesmo em se tratando de São Paulo, onde passou a maior parte de sua vida, a educadora é mais lembrada por ter seu nome dado a um bairro nobre da capital, que surgiu na década de 60,  um luxuoso shopping,  além do antigo parque que atualmente é o CERET, estabelecimentos de ensino, creches, vias públicas e um sem número de lugares espalhados por cidades onde deixou marcas do seu trabalho.

Numa época em que a sociedade brasileira era predominantemente machista, escravocata,
Antiga sede do Lar Anália Franco- foto: divulgação 
monarquista, conservadora e católica, Anália Franco, que seguia a doutrina espírita, conseguiu superar todas as barreiras. E, antes de morrer em 1919, aos 66 anos, deixou uma obra educacional, pedagógica, humanitária e social representada por 71 escolas maternais e para adultos, no Interior e na Capital, 3 Liceus, 2 escolas de idiomas, 7 escolas profissionalizantes, 2 colégios, 24 creches, 2 albergues, uma colônia regeneradora para mulheres, 23 asilos para crianças órfãs, uma banda musical, uma orquestra, um Grupo Dramático, além de oficinas para a confecção de chapéus e flores artificiais em 24 cidades do Interior e na Capital paulista, e uma extensa produção literária que inclui romances, contos, crônicas, poesias e textos de peças teatrais.   

Professora, abrigo para órfãos e cega

Na mais completa obra sobre Anália Franco, “A Grande Dama da Educação Brasileira”, de Eduardo Carvalho Monteiro, cuja primeira edição data de 1992, encontramos os mais importantes fatos relacionadas à vida e à obra desta professora. Uma mulher que também foi jornalista, escritora, teatróloga, poetisa, feminista, republicana, abolicionista e espírita. Ou seja, tudo o que a sociedade daquela época não queria ser.
Anália Franco - foto : divulgação

Iniciou seus estudos em Resende (RJ), onde nasceu em  29 de fevereiro de 1853, filha de Antônio Mariano Franco Junior e Teresa Franco, que era professora, e teve dois irmãos: Antônio Mariano Franco e Ambrosina Franco de Salles. Com 8 anos, em 1861, veio  para São Paulo e continuou os estudos em escola onde a mãe era diretora. Em 1876 mudaram-se para Guaratinguetá e ali começou a lecionar com 16 anos. Voltou para São Paulo em 1877, matriculou-se na Escola Normal que havia sido reaberta e concluiu o curso em 1878.

Depois de algum tempo, fundou o Externato Santa Cecília e em seguida transferiu-se para São Carlos do Pinhal, onde residiam sua irmã Ambrosina e o marido Júlio Salles, mas ficou pouco tempo na cidade. Anália foi para Taubaté e ali fundou seu primeiro abrigo para crianças órfãs. Nessa mesma ocasião iniciou sua carreira de jornalista, escrevendo para as revistas  A Família, O Eco das Damas e A Mensagem.

Para divulgar suas ideias educacionais e pedagógicas, começou a publicar a revista Álbum das Meninas, em 1898. Mas, neste período uma doença a deixou temporariamente cega. Mesmo assim, continuou escrevendo artigos para as revistas e conseguiu publicar três romances: A Égide Materna, A Filha do Artista e A Filha Adotiva, este em fascículos impressos na revisa Álbum das Meninas.

A Associação e a Colônia Regeneradora

Na cidade de São Paulo, a obra mais marcante de Anália Franca ocorreu no início do século XX, mais exatamente em 17 de novembro de 1901, quando a educadora fundou a Associação Feminina Beneficente Instrutiva, cuja sede inicial foi no Largo do Arouche, passando nos anos seguintes pela Ladeira do Piques,  Rua São Paulo, Rua dos Estudantes, uma chácara em Pinheiros, em 1910 e, finalmente em 18 de fevereiro de 2011 comprou, sem qualquer recurso financeiro, com um grupo de senhoras de todos os níveis sociais, a Chácara Paraíso, de 75 alqueires de terra,  que pertencia ao coronel Serafim Leme da Silva, na parte alta do Tatuapé, região Leste da Capital.

No terreno, formado em parte por matas e capoeiras, e o restante com diversas
Interior da Universidade- foto: divulgação
benfeitorias, incluindo um velho Solar, de estilo bandeirista, que durante 14 anos serviu de moradia para o regente do Império, Diogo Antônio Feijó, foi fundada a “Colônia Regeneradora D. Romualdo”, aproveitando-se o casarão, a estrebaria e a antiga senzala. Tudo foi readaptado e nas instalações alojaram-se mais de 400 desabrigados,

O objetivo da instituição, de acordo com o pensamento da educadora, muito avançado para o Brasil de fins do século XIX e início do século XX, era “ recolher as mulheres pobres, com ou sem filhos, que se acham ao desamparo; meninas órfãs ou filhas de pais inválidos; meninos com suas mães, até 8 anos; os filhos de mães operárias de 2 anos para cima; criar aulas de instrução primária, secundária e profissional, diurnas e noturnas, para asiladas ou não; criar seções especiais para enfermeiras e mulheres arrependidas”. A entidade acolhia a todos, independentemente de sexo, cor ou religião. 

Do Sítio do Capão Grande à Chácara Paraíso
Data de 1968 a formação daquele que se transformaria, menos de 50 anos depois, num moderno bairro residencial de classe média alta, e que hoje compreende parte do Tatuapé e da Vila Formosa, na Zona Leste da Capital.
CERET- foto : divulgação
A Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, que ficaria mais conhecida como Lar Anália Franco, foi uma das primeiras entidades a se estabelecer na região, onde chegou a partir de 2011, com o objetivo de desenvolver atividades sociais. 
De acordo com os registros, a Associação instalou-se na Chácara Paraíso, cujo proprietário mais ilustre foi o Padre Diogo Antôno Feijó, a partir  de 1829, que se tornou Regente do Império (1837 a 1935), e morou no local por 14 anos.
A Chácara Paraíso fazia parte do Sítio Capão Grande, que pertencera à sesmaria do bandeirante Francisco Velho, tinha 75 alqueires e Anália Franco deu à chácara o nome de “Colônia Regeneradora Romualdo de Seixas”, em homenagem a um bispo baiano, seu orientador espiritual.
Até 1934, a entidade usou o velho prédio erguido no século XVII em taipa de pilão. Era um casarão assobradado central, com duas extensas alas térreas laterais, medindo cada uma cerca de uns 100 metros,  a senzala e os antigos currais. Por causa do precário estado de conservação, precisou passar por uma grande reforma que tornou as instalações adequadas para os objetivos da instituição filantrópica.
Antes, em 1930, foi iniciada a construção de um moderno prédio de dois andares, com numerosas e amplas dependências. O edifício ocupava o mesmo terreno, distante pouco mais de 100 metros à frente do antigo, com a sua ala frontal voltada para a atual Avenida Regente Feijó. Nele está instalado, desde 2001, um Campus da Universidade Cruzeiro do Sul.   
Nas instalações da Associação, não se ensinavam apenas as matérias que são a base do aprendizado. Foram criadas oficinas para confeccionar roupas, porta-jóias, bonecas e brinquedos. Montou-se uma tipografia, onde as alunas aprendiam a profissão de tipógrafas e ao mesmo tempo imprimiam as revistas educativas para divulgação dos ensinamentos da instituição. Criaram-se cursos de enfermagem e de arte dentária, que dava base ao atendimento das próprias alunas e foi formado um grupo dramático-musical, que por oito anos apresentou-se em cidades do interior paulista e de outros Estados. Por onde passou, Anália  deixou o exemplo do seu trabalho. Ela foi a inspiradora das mais de uma centena de entidades que surgiram, semelhantes à sua, ensinando e amparando milhares de pessoas desassistidas espalhadas pelo país.
Shopping Análise Franco - foto: divulgação
A educadora, que não teve filhos, faleceu em 20 de janeiro de 1919, vítima de surto de gripe espanhola, que contraiu quando cuidava das meninas internas da instituição. Um grande número de internas também adoeceu e cinco não resistiram. Anália Franco está sepultada no Cemitério da Consolação (jazigo 39 da quadra 62).
Anália Franco, desde 1906 era casada com Francisco Antônio Bastos, que fora contratado para fazer a contabilidade das escolas, asilos e creches e também fazia os pagamentos da instituição. Muito mais que um simples contador, foi o responsável pela supervisão e administração da entidade. Após a morte da esposa, Bastos foi para Minas Gerais para fundar o Lar de  Órfãos Anália Franco, mas, perseguido pelo clero local, foi obrigado a seguir para o Rio de Janeiro, onde fundou o Asilo de Órfãos Anália Franco, concretizando um antigo desejo de sua mulher. Ele faleceu no Rio em 19 de agosto de 1929.
O antigo casarão e Lar Anália Franco foi tombado pelo Condephaat em 1984 e pelo Conpresp em 1991 e atualmente é propriedade particular, fechada ao público. A instituição ocupou a Chácara Paraiso até 1993, quando foi vendida e loteada, dando origem ao bairro que é hoje o Jardim Anália Franco. O último presidente da Associação, eleito em 1965, foi Hugo Paulo Braga, que permaneceu no cargo até a venda da sede.
A instituição atualmente cumpre a nobre missão educacional de Anália Franco, semeada a 114 anos, em sua nova sede instalada em uma fazenda no município de Itapetininga (Rodovia SP 127, Km 166).